Ao som dos mortos-vivos

 

Segundos antes, as mulheres tinham ocupado seus lugares, as últimas pessoas da plateia a entrarem antes que o cigano misterioso passasse os ferrolhos na porta com um gesto decidido e ameaçador.

Arrastando seus corpos em decomposição, cinco mortas-vivas, quatro delas ainda traziam alguns fios secos na cabeça, que nem de longe lembravam os belos cabelos que tiveram; a quinta “moça” era careca e também a mais assustadora. As saias delas eram trapos, que já não tinham o volume, as cores vivas e a beleza comum aos vestidos das dançarinas de flamenco. Profissão esta, que as cinco exerceram quando vivas.

Outros três zumbis, de aparências tão terríveis quanto às das dançarinas do inferno, completavam a horda assassina.

Ao som das batidas de palmas do cigano – que não era zumbi, e que os controlava –, dois dos defuntos-errantes, iniciaram um som depressivo e constante, ao correr os dedos pelas cordas de uma guitarra. De outro emanou um som gutural e incompreensível, que nem de longe lembrava uma canção.

Só o homem que os controlava, compreendia o dialeto obscuro, e a plateia amedrontada, começou a se levantar e buscar uma saída.

Uma vida se perdera.

Passaram-se cinco minutos, e o público de umas cinquenta pessoas, estava totalmente exterminado; o cheiro de sangue se impregnava nas paredes de uma das úmidas cuevas de Granada. 

Não houve um momento preciso que a música terminou – simplesmente se desvaneceu no ar –, e foi a deixa para as zumbis saírem em fila, movendo-se lentamente, sem nenhuma sensualidade, e executarem uma dança estranha, comemorando a carnificina – o cigano, único vivo, aplaudiu.

 

  

Concurso cultural “Zumbifique um livro da Intrínseca”

Adaptado do livro O retorno, de Victoria Hislop. Trechos das páginas 13 e 14.